Patrick Nilo - Minha História - Patrick Nilo

Patrick Nilo – Minha História

Como tudo começou…

Patrick Nilo - Minha História 1O sonho de ocupar um cargo de Procurador da República surgiu na época em que conheci o MPF como estagiário. No quinto período do curso de direito passei no concurso para estagiário da PRM- Caruaru e tive a grande chance de conhecer procuradores inspiradores. Um novo e belo horizonte se desenhou.
Engraçado que eu fiz a prova para estagiário do MPF por acaso. Eu já tinha sido aprovado para o estágio do MPE, estava estagiando e gostando muito, mas surgiu uma prova para estagiário do TJPE. Fiz essa prova já que a bolsa era mais atraente.Por uma obra do destino, fiquei classificado em 16° lugar e não fui chamado imediatamente (eram 15) vagas. Isso me deixou chateado, com a necessidade de me testar mais uma vez.

Foi aí que vi no quadro de avisos da faculdade o edital do estágio do MPF. Cheguei em casa, perguntei a meu pai (à época juiz de direito) e ele me confessou que um dos seus sonhos frustrados era justamente não ter sido aprovado para Procurador da Repúplica. Falou-me um pouco do cargo, de um colega que tinha sido assassinado em decorrência do exercício do cargo Procurador da República, Pedro Jorge, mártir no MPF. Fiquei muito interessado. Eram 4 vagas, passei justamente em 4°. Talvez se tivesse passado no estágio do TJPE não fosse hoje procurador da república. Obras do destino, que credito a Deus.

Como disse, um dos grandes sonhos não realizados pelo meu pai foi justamente não ter sido aprovado para Procurador da República. Um motivo a mais, pois, para a minha desafiante conquista. Queria muito entregar esse presente para ele. Queria muito que ele pudesse assistir minha posse, recheado de orgulho, na PGR… Deu certo. Foram os dias mais incríveis da minha vida. Minha família toda reunida num hotel em Brasília para celebrar o meu grande momento profissional.

Meu Deus! Irradiava felicidade, realização, bons sentimentos. Era o esperado sabor da vitória, da realização de um dos meus sonhos ”impossíveis”. Minha esposa, meu filho, presenciando tudo o que mais sonhei. Os olhos de minha amada mãe marejados. A sensação é indescritível.
Celebro até hoje aquele dia. . .

O que meu pai me escreveu, dias depois da posse. . .

“Meu querido filho, Patrick! Você passou a integrar uma das mais importantes, respeitadas e por que não dizer, mais acreditadas das instituições republicanas: O Ministério Público Federal. Senti-me tomado de indizíveis felicidade e emoção, ao presenciar a sua posse, que representou a vitória, a coroação de árdua luta, permeada de noites indormidas, diversões em fins de semana com a família, sacrificadas, viagens cansativas e estudo incessante, tudo para alcançar a aprovação no concurso. Confesso, no momento da sua posse, enchi-me de justo e orgulho santo, próprio de todo pai, que testemunha e participa do triunfo dos filhos. Na minha mocidade, também desejei ingressar no Ministério Público Federal, você sabe bem disso, porém as circunstâncias da ocasião não me permitiram tal conquista. Seja feita a vontade de Deus! Resignei-me em permanecer no Ministério Público Estadual, instituição a que servi, com orgulho, alegria e dedicação, durante quase dezesseis anos, e como você mesmo diz: foi o que lhe serviu de estimulo para a conquista desse cargo, que você acaba de assumir. Pegando carona no pensamento do poeta Fernando Pessoa, eu lhe digo: Deus quis, eu sonhei e você realizou. Sinto-me, portanto, realizado, porque os pais se realizam nas conquistas dos filhos. Ensinei-lhe os primeiros voos e você voou muito mais alto e atingiu o píncaro da glória.

No momento em que você tomava posse, eu quis dizer-lhe o que lhe digo agora, mas a emoção e a ocasião não foram propícias, apenas contentei-me em abraçá-lo e parabenizá-lo, com o coração transbordando de alegria. Você não imagina o esforço que fiz para não me comover até ás lagrimas, o que foi impossível. No entanto, isso é natural para um pai que já atingiu o outono da existência e testemunha a vitória e a felicidade do filho. Agora passada as emoções , acho por bem lembrar-lhe algumas das ideias que discutíamos, quando nos encontrávamos nos fins de semana, e reiterá-las a título de conselhos de um pai, que, na sua existência percorreu os caminhos do Ministério Público e o da magistratura, e que no decorrer dessa longa caminhada, adquiriu experiências, cujas lições que faz questão de transmití-las para que você possa aplicá-las na longa trajetória que o espera.

A função que irá exercer, é nobre, porém, árdua e requer muitas renúncias e sacrifícios. Exerça-a, de modo a corresponder ás exigências que o cargo requer, e de maneira a dignificar essa instituição, agindo sempre com honestidade, proficiência e probidade! Não se deixe seduzir pelas vaidades humanas. Seja humilde! Na defesa da ordem jurídica e do regime democrático, aja com independência e denodo, como convém a um verdadeiro paladino da Constituição Federal e do Estado de Direito. Nunca deixe que se abriguem sob sua toga, a covardia e a corrupção a omissão e a negligência! Na defesa dos interesses sociais e individuais indisponíveis, procure ser justo e ir ao encontro dos necessitados e espoliados pelos poderosos, sabendo distinguir o joio do trigo, promova-lhes a justiça, sem transigir com interesses mesquinhos, daqueles que, muitas vezes, se escondem por trás dos miseráveis, transformando-os em massas de manobras, tão somente para tirar proveito em benefício próprio e dos seus mesquinhos objetivos! Abomine o crime e jamais odeie o criminoso! No desempenho da função, procure promover a justiça sem atropelar os direitos dos cidadãos, e nesse particular, tenho certeza de que saberá se conduzir com dignidade e honradez, porque essa sempre foi a sua conduta: agir com prudência , equilíbrio e serenidade, respeitando a dignidade humana. Seja sempre transparente! Repetindo Alcalá-Zamora, eu lhe digo ‘‘Nunca converta a miséria alheia em pedestal para os seus êxitos e cartaz para sua vaidade”, todavia, procure agir de modo que, ao final de cada ação, sua consciência nada tenha a lhe acusar e você não tenha motivos para se arrepender, mas ao contrário, ela o tranquilize e lhe cause bem- estar na alma, na certeza do dever cumprido! Aja sempre com a imparcialidade de um juiz e a bravura de um advogado, porque a missão assim o exige no interesse de buscar na decisão final do processo, ”o resplendor de todos os valores que presidem a justiça” na feliz expressão de Miguel Herrera Figueroa.

Lute na defesa dos princípios éticos e morais que você sempre defendeu e nunca desacredite da Justiça, ”pois são bem-aventurados os que promovem a justiça porque serão saciados” (Mt.5,6). Em breve você partirá para o exercício das funções que o esperam. Lembre-se de que partir, como ensinava Dom Hélder Câmara, é antes de tudo sair de si. Partir, mais que devorar estradas, cruzar mares ou atingir velocidade supersônica, é abrir-se aos outros, descobri-los, ir-lhes ao encontro… Caminhar é ir em busca de metas, é prever um fim, uma chegada, um desembarque!”

Que as bênçãos do Pai Celestial caiam sempre sobre você e que nunca esqueça de Deus é o principio e o fim de todas as coisas, por isso, é digno de toda honra e glória, em todos os momentos! Que as luzes do divino e Santo Espírito o iluminem nas múltiplas atividades de servir à lei e à Justiça! Nessa sua função , repito, caber-lhe-á restaurar o direito lesado, procurar dirimir os conflitos sociais, ajudar na construção da paz social, na defesa do regime democrático e da ordem social; promover a justiça aos injustiçados, libertar os oprimidos e ouvir o gemido dos excluídos, tudo isso, quando esses deserdados da sociedade tiverem os seus direitos sociais e individuais ameaçados ou postergados. Para tanto meu filho, é preciso “buscar metas, percorrer caminhos e prever um fim”. Seja feliz na sua caminhada! Se no decorrer de sua trajetória encontrar dificuldades, lembre-se destes meus conselhos, que me podem não ser sábios, mas são frutos de uma longa trajetória que me proporcionou aprender muito sobre a vida e que transmito para você como lição para as suas atividades, de forma que, no final da carreira, consciente de que cumpriu bem a sua missão, possa exclamar com Apóstolo das gentes ” combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé”! Parabéns, meu filho! Que Deus o abençoe!”

A mensagem foi longa, verdadeiro momento de intimidade entre um pai e um filho… Dada a sua profundidade, resolvi compartilhá-lha em sua inteireza…
A minha história com concursos públicos começou cedo. Meus pais eram funcionários públicos e uma grande preocupação me afligia: o que fazer para adquirir minha independência financeira? Não tínhamos talento para atividades empresariais, ou quaisquer outras atividades que gerassem lucro. Cresci numa família onde os temas concursos, direito, provas, estudos, eram do nosso cotidiano. Meu pai, professor universitário, ocupou os cargos de Promotor de Justiça e Juiz de Direito, minha mãe Procuradora do Município. Não tinha outra saída: estudar era a única chance concreta de independência financeira… Ainda com 18 anos, sem nenhuma habilidade, fiz concursos para o Banco do Nordeste(2x) e Banco do Brasil. Cheguei perto mais não deu… Fiz, então sem estudar de forma sólida uma prova da PRF, assim que tirei a minha habilitação, com a inocência de quem achava que por ter passado bem no teste do Detran, poderia ter chances em tal certamente. Não deu! Mais uma reprovação…

Passei um período me dedicando à faculdade e, no terceiro período, fiz a prova do TRE-PE, para o cargo de técnico, no ano de 2004. Estudei um pouco, mas ainda sem muita noção de como fazer isso. Fui classificado, porém muito, mas muito distante de uma posição com chances de nomeação. Mesmo assim, meu pai ficou todo orgulhoso e me parabenizou muito. Aquilo foi um grande incentivo. Continuei a minha faculdade e, como já mencionei dias atrás, fiz provas para estágio do MPE, onde estagiei 5 meses e para o do MPF, onde estagiei por 2 anos. Antes, ainda no 3° período, tinha feito provas para o estágio para a JF e para a PGE-PE, reprovei feio em ambas. Para a PGE ainda fui chamado, mas já estava no estágio do MPF, resolvi permanecer.

Quando ingressei no estágio do MPF, novas perspectivas se desenharam em meu horizonte. Tive contato com grandes e inspiradores Procuradores da República e logo o sonho de ingressar, como membro, no MPF surgiu. Passei a estudar mais, desenvolvi muito a minha capacidade de redigir peças processuais e logo decidi que era a hora de focar de forma mais profissional nos concursos públicos Jurídicos. Estava bem decidido que até o final da faculdade iria estagiar junto ao MPF. Queria muito conseguir passar em qualquer concurso público antes do término da faculdade. Abriu o edital do TRT, para o cargo de técnico. Era um edital enxuto. Estudei-o com muito afinco. Muita letra de lei e resolução de questões. Por semana, batia o edital duas vezes, de tão familiarizado que estava com os temas nele previstos. Minha primeira grande decepção. Em que pese ter acertado 95% da prova, fique pra lá de 400°, sem qualquer chance de nomeação. Foi duro, mas não me abati. Em seguida, assim que tinha terminado o 5° período, saiu uma prova desafiadora: delegado de polícia do Estado de Sergipe. Não tinha estudado ainda nada de Processo Penal, mas tinha uma ótima noção de penal, constitucional e metade de administrativo. Não me acanhei! A banca está CESPE. Estudei todo o conteúdo jurídico do edital, durante 2 meses. No réveillon desse ano (2005-2006), enquanto a grande maioria festejava, passei lendo a CF. Fiz muitas questões CESPE. Resultado: uma das maiores notas da parte jurídica. Fui mal em português (não tinha estudado nada). Passei (objetiva e subjetiva do mesmo dia) e durante todo o sexto período me preparei para a prova oral, onde também tive êxito. Não queria entrar na polícia, dada a falta de vocação mesmo. Lutei muito para passar em concursos de tribunais. Fiz provas de Analista do TRT de Pernambuco, mas não dava. Ficava em posições que não possibilitavam nomeação. Em 2006, fiz a prova de delegado do Ceará. Passei nas provas escritas, porém, não fui para o teste físico. Passei, igualmente, na prova de delegado de Pernambuco, meu estado natal, cargo que assumi entre 2008 e 2010.

Antes de assumir o cargo de delegado de Pernambuco, fiz provas de Analista e oficial de Justiça do TJPE (fui nomeado para os dois mas já era delegado), bem como as provas da PGE-CE (reprovei na subjetiva) e TRF, para oficial de Justiça, cargo que assumi no final de 2010. Um parêntese: fiz duas provas de juiz federal, ainda durante a graduação. Nas duas fiquei por uma questão na prova objetiva. No 8° período, passei na primeira fase da AGU, porém, não deu na segunda fase. Foi triste. Assim que me formei, passei 4 meses em casa, sem dinheiro, sem emprego, só na fé. Estudei muito durante esse período. Foi o período em que mais evolui. Estava muito focado. Fiz, então, a minha primeira prova do MPF, em 2008. Incrivelmente fiquei por apenas uma questão no grupo I. Fui muito elogiado pelos procuradores conhecidos, dado o grande feito para um recém formado. Nesse mesmo ano fiz a prova de Juiz de Sergipe. Nesse concurso tive uma das maiores notas na sentença criminal e não passei por 0.3 na sentença cível. Faz jus, no entanto, a uma atenuante. Nessa segunda fase de Juiz de Sergipe, estava cursando a academia de polícia civil de Pernambuco. Tinha uma prova no sábado, na Acadepol, em Recife, e do concurso, no domingo pela manhã, em Aracaju. Não tinha voos disponíveis para a ida logo após a prova, no sábado, da acadepol. Tentei obter liberação para viajar e fazer segunda chamada da prova do sábado: indeferido. Nem pensei em desistir. Tive que arriscar. Minha então namorada, hoje esposa, se dispôs a ir comigo, de ônibus, que saiu à meia noite e tinha previsão de chegada às 6 da manhã. Iria ser apertado. Mas arrisquei. Cheguei em Aracaju no horário previsto, fui ao hotel, lavei os olhos e, depois de uma noite indormida, fui fazer a prova subjetiva do domingo de manhã. Apesar dos pesares, detonei nessa prova do domingo de manhã. Uma nota excelente. Acertei uma questão subjetiva no tato. A que mais valia. Respondi para não deixar em branco e a fechei. Fica a dica, não sabe, arrisque. O problema era que a prova de sentença cível era logo no domingo à tarde. Imagine como estava um candidato que passou uma noite viajando, sem dormir, tenso sem saber se chegaria a tempo, e que tinha feito uma pesada prova subjetiva pela manhã.

Estava muito cansado. Fui fazer a prova domingo à tarde. Pasmém! De tão cansado, esqueci de levar o meu Vademecum. Como fazer uma prova de sentença cível, cansado e sem Vademecum? Não me abati. Pedi a muitos um código, ninguém me ajudou. Apenas um rapaz me deu um código de processo cível, quase imprestável, para eu me virar. Fiz a prova de sentença cível no tato. Tirei 6.3. No entanto de tão cansado deixei de acentuar palavras simples (cidadao, individuo) e isso tirou 0.6. Na prova de sentença criminal, estava muito bem. Descansei, dormi muito bem mesmo e detonei. A maior ou a segunda maior nota do concurso. Mas não era minha vez. Fiz, em seguida, o concurso de promotor de justiça do Ceará. Estava muito tranquilo. Já delegado, estudava como podia, sempre seguindo em frente. Sempre fui muito ráoido respondendo questões (isso me levava a cometer erros muito comezinhos) e, nessa prova de promotor do Ceará, não foi diferente. Resolvi-a em 2h. Fui de shorts, camiseta, sandália havaianas e me deparei, logo que sai da sala, com um cidadão com trajes formais, ao que tudo indica, membro do MPCE. Esse rapaz me deu uma olhada com uma cara nada amigável. Li no seu olhar “é esse o cara que quer ser igual a mim?” Rsrs, mas segui, humildemente. Saiu o resultado da primeira fase e eu vi que fiquei classificado em 33° (as aparências enganam rs). Fiquei bem feliz! Mas confesso que fui fazer a segunda fase sem estudar nada específico. Na segunda fase de promotor do Ceará caiu simplesmente tudo, mas tudo mesmo, que eu sabia e bem. Mesmo sem estudar detonei. Saiu o resultado e da posição 33, subi para 6°. Estava na prova oral do concurso do promotor de Justiça aos 25 anos e com a terceira melhor nota geral do certame. Nem eu acreditava. Para meu azar, a resolução do CNMP que regulamentava a exigência de 3 anos de atividade jurídica exigia que fosse, na inscrição definitiva, efetuada a sua comprovação, ou seja, antes da prova oral. Tinha um ano e pouco de atividade jurídica. Impetrei MS preventivo. Denegado. Não pude prosseguir no certame, mesmo havendo pouquíssimos aprovados para a prova oral. Também não era a minha hora.

Fiz a prova da PGE PE. Passei em ambas as fases. Nomearam 73. Adivinhem em que posição eu estava? 74°. O concurso expirou com 73 nomeados. Fiz a prova da PGE AL, também aprovado e não nomeado. Assumi o cargo de oficial de Justiça do TRF, em 2010, e resolvi fazer a prova de Juiz de Pernambuco. Reprovei já na objetiva por uma questão. Fiz a de Juiz da Paraíba. Reprovei da sentença cível. Fiz uma prova da AGU. Não estudei direito do trabalho e processo do trabalho. No mesmo grupo tinham as matérias de penal e e processos penal. Imaginei, nessas duas últimas eu me garanto. Na prova, detonei nos demais grupos. Notas altas mesmo. No malsinado grupo de trabalho, errei quase tudo das matérias que não estudei, em contrapartida, quase fechei penal e processo penal. Na hora de passar o gabarito, transcrevi uma resposta errada. Na mesma hora vi meu erro, mas não tinha o que fazer. Marquei as duas alternativas e a questão ficou neutra. Sem ela e só por ela, não consegui avançar no concurso. Ponto de corte em tal grupo.

Continuei, estudando, com o sempre vivo sonho de ingressar no MPF. Vou confessar uma coisa a vocês: dada a dificuldade do concurso do MPF e de sua pouca frequência, sempre mantinha os pés no chão e já admitia que a vida poderia me reservar outra história, outros cargos, mas seguia. Fiz, então, a prova do 25° concurso do MPF. Ano de 2011. Era a minha segunda vez fazendo aquela prova. A primeira que fiz foi em 2008. Aquela que não avancei para a subjetiva por uma questão, como já mencionado.

Estudei para a objetiva por conta própria. Não se tinha muita informação como temos hoje. Saiu o resultado. Reprovei por uma só questão no grupo II. Nos demais grupos, fiquei com 50% líquido (percentual mínimo para a aprovação). Já tinha aceitado a reprovação, estava ainda triste, mas já me reerguendo, quando, numa sexta feira, final de tarde, ao acabar de chegar cansado e pensativo do trabalho, recebo uma ligação da Procuradoria: “Olhe, ouve um erro no material do gabarito, mudamos e você está na segunda fase do MPF”. Foi uma das maiores alegrias da minha vida! Aquele gol no último lance de uma final de copa do mundo. Pela primeira vez, estava na segunda fase do concurso de procurador da república. Éramos 112 aprovados.

Para a segunda fase do 25° concurso do MPF, estudei muito como nunca na minha vida, afinal de contas, estava a um passo do meu sonho: ser procurador da República. Mas quantidade não é qualidade. Não estudei constitucional como deveria. Li por livros errados. Resultado, reprovado na subjetiva em tal grupo. Que decepção! Foi duro… Imaginava que não conseguiria mais nunca passar numa primeira fase do MPF, que historicamente é marcada por reprovar inclusive ótimos candidatos, dado ao seu formato de corte por grupos.

O 26° concurso de procuradores da República, para surpresa geral, dado a perspectiva do pequeno número de aprovados do concurso anterior, foi logo em seguida. Na verdade, sequer tinha findado do 25° concurso e já lançaram o edital. Todos os candidatos que estavam esperando o resultado da subjetiva, inclusive eu, tiveram automaticamente sua inscrição no 26° concurso efetivada pelo MPF, sem custos (era uma regra prevista na resolução).

Fiz a prova, então, a prova do 26° concurso. Fui muito bem em todos os grupos, exceto no grupo III. Fiquei por duas questões. Foi aí que vi a importância de se estudar súmulas. Caíram muitas em civil e processo civil. Errei todas. Fiquei bastante triste, desabado, não tinha vivido muita coisa, apenas concurso. Todas as minhas férias tinham sido utilizadas para estudos. Por uma fraqueza, resolvi dar um tempo dos concursos.

Casei, comecei a fazer outras atividades que gosto (música) e não suportava ver alguém falando sobre concursos e direito. Estava saturado. Foram 2 anos assim. Longe dos estudos. Levei a sério a carreira musical. Esforcei-me bastante. Foi aí que comecei a perceber que para alavancar minha carreira musical precisaria de muita gente que não acreditava, muitos oportunistas, e de pessoas que não tinham a mesma garra que eu. Comecei então, a abrir os olhos. Nos concursos eu só dependia de mim. Comecei a aceitar que tinha algo muito mal resolvido com os concursos, que tinha que ser resolvido. Vi que estava num cargo que não me fazia feliz como profissional (oficial de justiça federal), me sentia subutilizado, sabia que poderia contribuir mais com a sociedade.

Estava inscrito no concurso para promotor de Justiça do meu estado. Prova a 130km de minha cidade. Concurso pouco concorrido. Poucos inscritos, pois ocorreram diversas provas no mesmo dia. Era uma ótima oportunidade. Veio a tentação de sair do foco da área federal e tentar esse concurso na minha terra natal. Pensei, pensei muito e, contra os meus desejos, me guiei pela técnica. Fui fazer a prova de Juiz Federal em Florianópolis (do outro lado do país).

Tinha estudado bastante para a prova de Juiz federal. Mapeei a prova, melhorei meus pontos fracos e fui pra guerra. Tirei uma nota maravilhosa na objetiva, que me deixou em 17° lugar. Vi que a especialização estava funcionando. 6 meses de estudos, desde que decidi voltar e já colhia bons resultados. Estudei bastante para a segunda fase desse concurso. Assisti vídeo aulas (para subjetivas acho que vale a pena), treinei sentenças, dei o meu melhor. Não foi o suficiente naquele momento. Reprovei na subjetiva. Voltava ao “zero” outra vez. Estava gastando horrores com viagens, livros, cursos. Cheguei a ficar desequilibrado financeiramente. Mas iria até o fim. Já estava decidido.

Foi uma fase bem difícil para mim. Minha esposa estava grávida, não tinha o mesmo pique para trabalhar e me ajudar com as contas a pagar. Assumi tudo. Deus foi me mostrando as saídas. Com humildade, ia vivendo cada dia, não deixava que nada me tirasse do foco. Eu sabia que iria dar certo, nada me pararia. Saiu o edital do TRF 2a região. Preparei-me para a prova. Novamente mais gastos, mais desgaste emocional, mais uma batalha a ser travada. Lembro que fui fazer a prova da primeira fase no Rio de Janeiro. Começaria às 11 da manhã. Queria chegar chegar cedo para não correr o risco de ficar preso no trânsito ou algo do tipo. Estava investindo alto demais para correr esse risco. Ao chegar no local de prova, imaginava que teria local próximo para almoçar. Não tinha. Apenas barracas de lanches. Selecionei bem o que poderia comer. Apenas encontrei sanduíches. Comi um com suco. Não tinha muita opção. Levei comigo alguns chocolates e água. Fui fazer a prova mal alimentado.

Uma observação: fiquei impressionado com a quantidade de candidatos de todos os locais do Brasil. O povo estudando feito louco nas escadas do local de prova. Tinha candidato até com protetor auricular de construção civil estudando rsrs.

Demorou muito para que pudesse entrar no local de prova. Não acharam meu nome, tive um contratempo até corrigirem o erro. Uma fila enorme se formou para entrar no prédio. Desorganização. Essa situação não tem como não mexer com o emocional. Senti que estava ficando com fome. Um cara com 1,94 não iria ser sustentado por um sanduíche e um copo de suco por muito tempo. Depois de muita luta, entrei na sala de aula. Já sentia que estava com pouca energia.

Entregaram as provas. 15 minutos lendo aquelas instruções enfadonhas. Autorizaram o início das provas. Antes de iniciar, pedi iluminação a Deus. Comecei. Na quarta questão já não conseguia me concentrar. A fome e fraqueza estavam aumentando. Fui logo para os chocolates. Comi 2 ou 3, tomei água e tentei seguir. Terminei a prova de constitucional, ainda um pouco desconcentrado, comecei a passar mal. Enjoo, o coração acelerado, pressão baixa. Parei um pouco. Respirei fundo. E fiz mais algumas questões. E isso repetidas vezes. Faltavam umas 30 questões. Estava no meu limite. O coração disparado e quase desmaiando. Imaginei o quanto seria ruim desmaiar tão longe de casa, sem ninguém por perto para me ajudar.

Mantive a calma, pedi para ir ao banheiro. Lavei o rosto. Respirei fundo e olhando para os céus, pedi a Nossa Senhora da Conceição (minha madrinha de batismo), que intercedesse junto a Deus, a fim de que aquela minha ida até ali, com tanto sacrifício pessoal, não fosse em vão. Voltei para a sala , ainda meio desorientado, consegui terminar a prova. Demorei mais que o normal fazendo essa prova. O voo de volta para casa estava bem perto. Tinha que chegar rápido no aeroporto. Com duas malas, sai do local de prova, procurando um táxi (naquela época não tinha Uber). Não tinham táxis disponíveis. O jeito era andar a pé procurando. Não podia esperar. Depois de andar, com medo de assaltos, encontrei dois rapazes que estavam pegando um táxi e vi quando disseram que iriam para o aeroporto. Perguntei-os se estavam fazendo a prova, os quais confirmaram. Pedi para ir com eles, consegui. Cheguei ao aeroporto no limite. Estava esgotado emocionalmente.

Saiu o resultado e consegui passar nessa primeira fase. Foi uma grande vitória, devido as circunstâncias. Na segunda fase, mais uma vez, não deu. Voltei novamente ao “zero”. Mais endividado, mais desgastado emocionalmente, porém, mais esperto e experiente. Era final de 2014. Meu primeiro filho estava para nascer. Não tinha até então me dedicado como deveria à gravidez da minha esposa. Fui para todas as ultrassons, mas sentia que estava devendo companhia mesmo, nesse momento de ansiedade. Como dito, era nosso primeiro filho. Decidi suspender os estudos para viver aquele momento. Era o justo. Foi o que Deus alimentou em meu coração.

Detalhe, o edital do MPF já estava na praça, mas me contive. Sabia que o primeiro mês seria quase impossível estudar.

Dia 27 de dezembro de 2014. Às 6:00 da manhã nasceu meu querido filho Victor. Foi uma grande alegria. Como pai muito cuidadoso, cerquei meu filho de cuidados. Confesso que, por inexperiência, exagerei. Era muito preocupado com tudo. Um espirro e eu corria pra cuidar. Várias noites mal dormidas. Não tínhamos qualquer experiência com bebês, foi dureza se adequar à nova realidade. Não pude dar ao meu filho naquele momento tudo o que sempre sonhei quando da chegada desse momento em minha vida, mas ofereci tudo o que pude, aliás, até mais do que pude. Em um lar simples, mas recheado de amor, cuidamos do nosso filho, evoluímos como seres humanos, conhecemos um amor, ante então, desconhecido.

Passados 30 dias do nascimento do meu filho, precisava voltar aos estudos. A prova do MPF era em março. Estava no fim do mês de janeiro. Não podia mais esperar.

Comecei a revisar, estudar como achava que deveria. Trabalhando meus pontos fracos, adaptando-me às matérias mais específicas do MPF. Foram dias de muita luta. Estudava nos intervalos, quando deixava minha esposa bem. Corria para meu local de estudo e seguia. Com calma fui esperto. Não me abalava quando tinha que parar muitas vezes para resolver pequenas coisas do dia a dia. Ficou bem mais difícil estudar, mas a minha vontade de crescer, de dar orgulho àquele filho que acabara de chegar ao mundo, era gigante.

As coisas começaram a ficar ainda mais difíceis. Minha esposa teve um desequilíbrio hormonal, próprio do período pós parto, e ficou muito instável emocionalmente. Triste, chorava muito, indicando que entraria em depressão se não cuidada. Tive que dar mais atenção ao seu estado. Uma grande preocupação. Por vezes, ficava com meu filho, no carrinho, e com o livro estudando. Matérias difíceis, ficava desconcentrado. Chorei algumas vezes pelo peso que tinha que carregar, mas olhava pra cima e dizia com raça que não iria desistir, que iria vencer, que nada iria me parar.

As noites estavam puxadas. A saúde pedia descanso. Percebi que estava com a pressão arterial alterada. Ao tentar relaxar tinha taquicardia, estava um caco. Mas nada me pararia, só Deus, mas esse estava do meu lado. Fui então fazer a primeira fase do concurso. Noite mal dormida no dia anterior (mas isso já era regra), cheguei cedo ao local de prova. Iniciada a prova, passou um filme de tudo o que tinha vivido até ali. Da minha frustração nos concursos anteriores do MPF, do meu sonho de ser procurador da República, da minha parada nos estudos e, agora, do meu retorno. Senti uma felicidade enorme de estar ali. A prova, como de costume, pesadíssima e eu, levemente, a enfrentando.

Fiz a prova e logo corri para a internet para saber dos comentários. Reclamação geral. Quase ninguém tinha gostado. Postei meu gabarito no site “olho na vaga”. Um desastre. Estaria fora por lá. Visto isso, peguei meu gabarito e cartão de inscrição, joguei pra lá e fui me lamentar com a minha esposa. Pensei eu: “mais uma reprovação”…

No entanto, vi que tinha incluindo no referido site de concursos, varias respostas erradas. Corrigidos os erros, estava eu muito bem na fita. Saiu o gabarito provisório e eu livrei o corte em todos os grupos. O que mais pedia a Deus era isso: não depender de anulações. Deu certo. Exultava de alegria. A primeira fase do MPF é dura. Mais uma vez na subjetiva. Sabia que eu faria diferente. A reprovação no 25° concurso, na segunda fase, tinha me ensinado demais.

Eu evitava falar isso para não parecer arrogante ou prepotente, mas desde reinício dos meus estudos, sentia que o concurso que mais eu me sentia apto a passar era o MPF. Tinha aprendido, duramente o caminho.
No dia seguinte à divulgação do gabarito, já sabendo que estaria na segunda fase, comecei meus estudos para a prova subjetiva. Estudei muito as matérias principais dos grupos (as que rendem mais pontos), bem como as mais específicas (Direito Internacional e Direitos Humanos). Feito isso, passei matéria por matéria, arriscando em alguns temas. Foi um estudo muito cansativo, mas prazeroso. Eram assuntos que me interessavam, comecei a me apaixonar mais ainda pelos temas próprios do MPF. Criei um banco de dados com roteiros de respostas, vários termos em alemão e inglês, me preparei para fazer diversas citações de autores. Sabia que era preciso, para garantir, fazer o básico bem feito e colocar as cerejas. Não iria deixar escapar fácil essa chance de aprovação.

No meu trabalho muita pressão. Por estar estudando e todos sabendo, nada poderia dar errado. Seria fatal. Seria taxado de relapso ou descompromissado com o cargo. Estava na mira. Foi o período mais difícil por lá. Parece que a vida quer testar mesmo. O número de mandados subiu vertiginosamente. Eu me perguntava o porquê disso, logo agora que estava num período delicado, precisando de mais tranquilidade. Mas não baixei a guarda, fiz tudo direitinho. Era tripla jornada, trabalho, família e estudos. Estudava sem parar, nessas horas é aconselhável dar tudo. Estava numa segunda fase de um concurso com poucos aprovados e com tendência de aprovação. Tinha que arriscar.

Meus familiares assustavam-se com meu esforço. Minha mãe ficava querendo me preparar emocionalmente para caso desse errado. Eu não aceitei essa possibilidade. Eu dizia: “não vai dar errado. Eu sei o que estou fazendo”. Passaram-se 2 meses nessa peleja. Ansiedade, cansaço, mas a vontade de vencer era grande demais para dar espaço a qualquer mal sentimento. Faltando duas semanas para a prova subjetiva, passei a estudar apenas as matérias que seriam cobradas no primeiro dia (eram 4 dias de prova). Queria começar bem. Dar o primeiro passo com maestria. Foquei então do GI. Grupo que tinha me tirado do concurso de 2011. Nos dias que antecederam às provas, separei todo o material de legislação que levaria. Imprimi uma infinidade de leis e tratados. Organizei tudo, minha bagagem e fui para Recife, na sexta, no final da tarde. Me despedi da minha esposa e do meu filhinho, como se buscasse apoio para superar as inseguranças que eram inevitáveis.

Chegando no hotel reservado, fui estudar mais um pouco para a primeira prova do sábado pela manhã. Entrei no grupo do WhatsApp dos candidatos e vi que tinha esquecido alguns temas importantes de eleitoral. Tinha mesmo deixado pra ver depois tais assuntos e passei batido. Tentei estudá-los como um reforço. Li algumas páginas, mas o cansaço me venceu. Vi que seria impossível dominar tamanha quantidade de assuntos. Não dava. Parei um minuto, fui para o meio do quarto, coloquei meus joelhos no chão, elevei minhas mãos e o meu olhar para o alto e com os olhos cheios marejados abri meu coração a Deus: “Pai, sou pequeno, limitado, pecador, por meus méritos não mereço o que desejo. Tem piedade de mim, meu Deus. Olha pra mim, sou teu filho. Quero muito passar mas só peço que, acima de tudo, seja feita a tua vontade“.

Naquele momento entreguei toda a minha batalha e o meu futuro nas mão de Deus. Senti uma paz gigante no coração. Quando levantei, senti que estava aprovado. Digo que levantei aprovado. Estava certo disso. Fui então descansar, dormir para passar pelo primeiro dia de provas. Acordei cedo, ansioso para não me atrapalhar durante o caminho para a prova. O trânsito em Recife é muito pesado. Cheguei a tempo. Me ambientei. O local de prova era o mesmo que tinha já feito em 2011, na qual fui reprovado. Me senti bem ali. Um pouco de nostalgia, mas que confluiu para o bem. Terminei a prova rapidamente. Sabia que razoavelmente bem as questões cobradas. Senti que fui bem.

Cheguei ao hotel, almocei, descansei, fui confirmar algumas respostas, descansei mais um pouco e revisei todas as matérias do próximo dia de prova. Foi exaustão. Fiz isso e mais uma vez descansei. Mais uma vez, fui bem. Senti isso novamente. Sabia bem as questões. Não tinha como ter feito uma prova ruim. Seria me enganar muito. Mentalmente, encarava cada novo dia como uma nova prova. Esquecia do dia anterior. Era como se zerasse tudo. Tinha que me sair bem em todos os dias. Sabia que se fosse mal em um deles, tudo seria perdido. Fiz o mesmo que no dia anterior quando cheguei da prova. Revisão da matéria do dia seguinte. Fui igualmente bem no terceiro dia. Sabia que só faltava mais um. Controlei a ansiedade. Tinha ido muito bem nos dias anteriores. Estava a um passo.

No quarto e último dia de prova já estava muito cansado. Querendo muito acabar com essa etapa. No entanto, já um pouco experiente, mantive a calma. Tive que mentalizar que sairia do zero mais um dia. Abri o caderno de respostas, ansiosamente, a fim de ver quais temas estavam sendo cobrados. Se caísse para vocês o seguinte tema “disserte sobre dogmática penal e sociedade dos riscos” o que fariam? Se eu não tivesse lido um livro de última hora e feito um roteiro de respostas sobre esse tema, eu ficaria aflito. Mas vibrei! Foi obra de Deus. Dias atrás tinha olhado para a minha estante de livros e lido esse material sem muita programação. Crédito a Deus essa intuição.

As demais questões também sabia razoavelmente bem. Fiz tudo certinho e entreguei, pela última vez, o caderno de respostas. Saí do local de prova vibrante! Chorei muito no caminho de volta para casa. Não iria reprovar. Sentia isso constantemente.

Passados alguns dias, após os quatro dias de provas subjetivas, a confiança já não era a mesma. Toda hora fazia contas, mentalmente, especulando quanto tiraria nas questões, à vista das minhas respostas. Era torturante a espera. Foquei mais no meu trabalho, como refúgio mesmo. A ansiedade era grande demais. O grande dia da divulgação do resultado se avizinhava. A expectativa era de que sairia, internamente, primeiro, como costumava acontecer. E foi assim… Estava almoçando com a minha esposa, perto das 14h, num restaurante próximo da minha casa. Dizia a ela que àquela altura meu destino já estava traçado. Só restaria a divulgação. A expectativa era de que apenas ao fim da tarde, daquele dia, divulgassem internamente o resultado. Certamente, vazaria antes da divulgação no DOU.

Ao sair do restaurante e entrar no carro, meu telefone toca. Era um grande amigo, procurador da República, professor Marcelo. Atendi: -Alô, gostaria de falar com o Excelentíssimo procurador da República, Patrick Nilo. Meu coração disparou (já imaginava algo), – Opa grande Marcelo, tudo bem? – Você passou rapaz! Parabéns! E detalhe, passaram menos de 50 pessoas. Antes de comemorar, lhe indaguei: – foi mesmo? Ele confirmou. Exultei de alegria! Abracei minha esposa e parti para casa ainda incrédulo e muito nervoso, não tinha caído a ficha. Ao chegar em casa, coincidentemente, minha mãe estava lá. Não resisti. Dei-lhe um abraço e aos prantos disse: seu filho passou Mainha e desabei em choro. Foi a maior emoção da minha vida, sem dúvidas. Sabia que agora estava, realmente, muito próximo do meu sonho. Só faltava a prova oral. Liguei pro meu pai, ele ficou muito emocionado. Foi demais! Comemorei muito aquela vitória. Deus é maravilhoso.

Estava eu na prova oral, menos de 50 pessoas aprovadas no Brasil para 70 vagas de procurador da República. A sensação era indescritível… Sabia que agora era só colocar a bola pra dentro, o goleiro já estava no chão. Passado o primeiro momento de comemoração, o peso da responsabilidade de concluir todo aquele processo começou a chegar. Nunca tinha feito uma prova oral com a complexidade da prova do MPF. Nosso grupo de aprovados começou a trocar material (áudios de provas orais anteriores, resumos). Não sabia por onde começar a estudar. Mais de 500 pontos no edital. O sorteio de cada ponto e de cada disciplina é feito na mesma hora da prova. Logo percebi que não adiantava saber muito de algum ponto e nada de outro. A estratégia foi horizontalizar o conhecimento. Ter ao menos uma noção de cada ponto do edital.

Estava bem apertado financeiramente. Tinha muitos compromissos, mesmo assim resolvi ousar. Reconheci que era o momento de apostar todas as fichas. Apareceram alguns cursos de prova oral. Fiz dois: um com Edilson Vitorelli (o que mais gostei) e outro com o CEI. Foi um investimento alto. Não só pelo valor dos cursos (o primeiro foi bem em conta), mas também pelos gastos com deslocamento e hospedagem, já que o primeiro foi em Campinas SP e o segundo em Brasília.

Durante o curso do professor Edilson Vitorelli, conheci vários candidatos também aprovados, hoje colegas. Achei-os geniais. Muita gente inteligente. Por trás de cada pessoa daquela, via uma história de superação semelhante à minha. Cada um tinha carregado a sua cruz, para chegar até ali. Era muito bom saber que fazia parte daquele seleto grupo. Enchi-me de orgulho. O MPF ganharia muito com aquelas pessoas. Logo formamos grupos e diariamente fazíamos simulados entre a gente pelo Skype. Lembro que certa vez, um grupo que 6, 7 pessoas, varou toda a madrugada com esses simulados. Conheci alguns candidatos que davam medo de comparações. Eram muito bons. É impressionante que mesmo na prova oral, um sentimento muito compartilhado era o do que éramos uma espécie de fraude. Não tínhamos, muitas vezes, a confiança devida. Era assustador.

Estudava muito, muito e muito. Chutei o balde mesmo. Não queria perder aquela oportunidade. Não iria mesmo perdê-la. E quando menos espera, chega o dia de partir para Brasília para o tão esperado e decisivo momento: a prova oral! A tensão era enorme. Como dito, apostei todas as fichas naquela oportunidade. Não poderia dar errado. Se desse, muita coisa mudaria em meus projetos pessoais. Não teria condição financeira, por exemplo, se continuar pagando as prestações de um apartamento que adquiri na planta, como projeto de vida. Seria frustrante. Mas não daria. Eu estava ali para perder. Sabia que era só não deixar cair a peteca. Tava na cara do gol.
Saí com destino à Brasília, ao meio dia. Na saída de casa minha família reunida. Entrei no carro e ao olhar nos olhos de cada um, lágrimas. Contive-me, e parti em busca do nosso tesouro. Não era só por mim que lutava com tanta bravura.

Pedi-os muita oração. Minha esposa, então, foi à igreja. Segundo depois me relatou, apesar de não ser devota de Nossa Senhora, sentiu vontade de pedi-lhe intercessão por aquela causa. Segundo ela, ao se ajoelhar aos pés daquela imagem e orar, inexplicavelmente, desabou em prantos, e saiu dali com muito conforto no coração. Eu não estava sozinho nessa luta. Apenas era o personagem que corporificava aquela batalha. Meu pai, mãe, tias, a família toda estava reunida em tal propósito. Não parava de estudar. Durante todo o voo, li direito internacional. Revisei todo o edital mais uma vez, ao chegar no hotel, em 2 dias. À medida que ia se aproximando o grande dia, mais insegurança, mais medo, mais nervosismo.

Chegou o grande dia…

Pela manhã fui fazer os exames médicos na PGR. É intimidador aquele prédio todo imponente, rodeado de vidros azuis. Tremi na base. Eu, do interior nordestino, matuto legítimo, nunca tinha visto algo tão suntuoso.

Com humildade, adentrei naquele recinto e me dirigi ao setor médico. Nervoso, me identifiquei e logo fui passar pela junta médica. Foi bem rápido. Estava com a pressão arterial alterada, mas nada que reprovasse. Terminado o exame médico, fui até o local onde estava sendo realizada a prova oral pela manhã. Faria a minha à tarde. Adentrei no recinto e fiquei bestificado com tudo aquilo. Via, pela primeira vez, os examinadores que tanto tinha lido sobre o que escreveram, pessoas que só tinha visto em sessões do STF, pela TV Justiça, um ministro do STJ, a então vice-procuradora geral da República, o doutrinador Douglas Fischer, muita gente que admirava. Saber que eles iriam me examinar, mais tarde, era assustador. O medo de fazer feio era inevitável.

Em seguida, me direcionaram até a banca de tributário e financeiro. Era a primeira vez que estava diante de uma Ministro do STJ, Mauro Campbel. Muito tranquilo, me fez perguntas simples. Senti que não queria prejudicar ninguém. Mais uma matéria superada. Após Direito do consumidor e Econômico. Eram 10 perguntas. Teria que acertar 5, para garantir os 50% necessários para a aprovação. Acertei nove. Ela insistiu para eu responder a que faltava de forma completa. Estava com 9. Por acaso, falei a palavra que ela julgava faltar. Ela me adiantou a nota,10. Mais uma superada.

Faltava apenas uma banca, a temida examinadora Ela Wiecko. Alguns candidatos já tinham relatado que ela estava pedindo para falar 10 minutos sobre o tema sorteado. Impossível não se assustar. Estava sentado, esperando a minha vez. O cansaço era evidente. Mesmo naquela pressão toda, mais de 2 horas de prova oral, já me dava vontade de fechar os olhos e cochilar. Fiquei no meu canto, tentando manter a concentração. Quando por cansaço cochilo, escuto uma voz susurrar no meu ouvido: “Patrick” eu abri os olhos não tinha ninguém do meu lado. Com aquele chamado fiquei bem desperto. Creio que foi Nossa Senhora, de que sou devoto e afilhado de batismo, me alertando para não baixar a guarda. Após mais um tempo, chamaram-me e fui para a última parte da batalha final.

No dia 26 de outubro de 2015, eis que recebo notícia de minha aprovação. Quanta felicidade. Avisei aos meus familiares e amigos. Um grande feito foi realizado. Um milagre aconteceu!